Muros de concreto como ecolimites

Por André Delacerda

DonaMarta No Rio capital uma polêmica surgiu há cerca de dois meses mais precisamente. Ela vem com um lado a favor, formado por alguns moradores da cidade, e outro lado contra, formado por moradores de favelas, estudiosos, formadores de opinião pública, um Prêmio Nobel da Paz, e até a ONU que pediu explicações ao Governo Brasileiro sobre essa medida, esta semana.

Trata-se dos tão polêmicos muros para cerca favelas na Zona Sul.

No decorrer deste post vou embassar a opinião do blog e analisar do ponto de vista ambiental. E você leitor poderá concordar e até discordar, porém, no mínimo vai chegar a conclusão de que essa medida não é solução para os problemas ambientes.

Gastar 40 milhões de reais em um muro para supostamente deter o avanço de favelas sobre a Mata Atlântica me parece uma medida primária. Se o Estado diz que irá está presente daqui por diante na comunidade (favela) fiscalizando, então oras, não há a necessidade da construção de muros.

As questões ambientais nas favelas e a degradação do meio ambiente nestas áreas são muito maiores que apenas um muro para agradar a sociedade.

favela Questões podem ser listadas, como: o porque o Estado nunca se faz presente fiscalizando e cumprindo suas atribuições de guardião da Mata Atlântica? A Lei 11.428/2006, proíbe a supressão da vegetação primária do bioma Mata Atlântica para fins de loteamento ou edificação nas regiões metropolitanas e áreas urbanas. No mínimo o Estado foi ausente, não cumpriu esta lei, e a agora quer trazer uma medida inocua para dizer que irá resolver tais problemas. E mais uma questão surge. Porque não se utilizar os F$ 40 milhões de reais da construção dos muros em medidas de reflorestamento, remoção de parte das favelas construídas na mata, e o reassentamento destas em áreas ecoeficientes? Talvez um muro renda mais divisas eleitorais do que o plantio de árvores e construção de moradias ecoeficientes. O muro agrada parte da sociedade que ver uma favela como um problema, não tendo interesse de trazer medidas inteligentes para solução de tal problema. 

Se já existiam ecolimites, e o Estado (esfera estadual e municipal) diz que irá estar presente. Não seria melhor se fazer uma fiscaliz297_1322-OLHOVERDEMARÇO1ação diária, eficiente? Existe uma contradição na argumentação dos governos. Se o Estado está presente não se precisa de muros para proteger a Mata Atlântica. Pois, os ecolimites existes já bastariam com auxílio de fiscalização para serem respeitados.

Vamos partir da idéia de que os muros são construídos e as comunidades da Zona Sul são cercadas. Os problemas da degradação da Mata Atlântica acabaram?  Claro que não, seria muito ingênuo pensar assim. A população que não têm na sua formação a educação ambiental pode muito bem utilizar o muro para esconder o lixo que será jogado na floresta, já que a coleta é ineficiente. Muros também são quebrados. Se o Estado antes já era ineficiente na fiscalização, quem garante que será agora?

A Cidade do Rio de Janeiro têm um enorme bioma de Mata Atlântica – Parque Nacional da Floresta da Tijuca, Estadual Pedra Branca, e outros. Estes, têm a sua principal extensão nos territórios da Zona Norte e Oeste, vide Maciço da Tijuca. Nestas áreas dezenas de favelas invadem e ameaçam a floresta tropical. Porque não se construir muros ali, onde a floresta é maior e sofre enorme degradação? Essa é a resposta que nenhum governante quer responder, ela dilacera a justificativa dos muros na Zona Sul. Observe que grande parte da Mata Atlântica carioca está nas Zonas Norte e Oeste e é invadida por favelas e construções de luxo. Então o certo seria a medida começar potijucar essas áreas que tem uma maior urgência de proteção e intervenção. Certamente, a construção nesta áreas não traz visibilidade e divisas eleitorais como na Zona Sul. Na Estrada Grajaú-Jacarepaguá, que liga a Zona Norte à Oeste na cidade do Rio, existem 10 comunidades crescendo e invadindo a floresta. Será que o Estado já pensou nisso?

Até agora estou tentando encontrar nos dicionários e na web, o conceito para ecolimites. Mas pelo meu conhecimento, lembro-me que ecolimites são feitos por marcos, cercas leves que não impedem o trânsito da faúna, e até são construídos por muro feitos com vegetação. Entende-se como ecolimite algo que envolva barreiras ecoeficientes, construídas com materiais que não agridem o meio ambiente. Sabendo-se que um muro leva concreto, brita, ferro e tijolos de cimento. Isso já foge da palavra e classificação de barreira ecológica.

Voltando a presença do Estado que agora afirma a sociedade que estará presente nas favelas. A questão ambiental numa favela é muito mais ampla e passa também pelo saneamento básico com 100% de coleta de resíduos. Será que o Estado irá garantir isso? Já que o esgoto corre sem tratamento para os rios e o mar. Este último, que muita gente não se preocupa e é tão importante quanto a Mata Atlântica. E a questão da coleta de lixo, sabemos que as favelas por serem construídas em regiões ingremes não tem uma coleta de lixo eficaz, quando não chega a ter coleta. E a impren0907200601nsa todos os dias mostra depósitos de lixos escorrendo dessas montanhas humanas para dentro da mata. Quem garante que o lixo não será escondido atrás de um muro? Será que o Estado garantirá uma coleta eficaz de lixo nas favelas e a implantação de pequenas usinas de reciclagem? Penso que não.

Agora a maior e mais importante medida. Alguém saberia responder qual é?

Acertou quem falou em Educação Ambiental. R$ 40 milhões seriam suficientes para fazer o maior programa de educação ambiental que este país já viu. Com a criação de centros formadores de fiscais voluntários, unidades de reciclagem nas favelas, e a conscientização das populações para a importância de se preservar a mata, a qual se encarregaria de fiscalizar em parceria com os poderes públicos. Porém, uma constatação que se têm é que investir na formação e no campo das idéias, mudar o modo de pensar, construir e formar o cidadão, parece que jamais será interesse do Estado. Saneamento básico, uma medida de saúde e ambiental não dá votos, pois não estão visíveis como os muros.

Por certo, problemas ambientais não se solucionam com medidas paleativas, encobrindo uma área com uma peneira – Zona Sul – e abandonando outra – Zona Oeste e Norte. Os anos nos diram quem estava certo, e a floresta que pulsa no coração da cidade do Rio de Janeiro certamente continuará perdendo pedaços e muitos metros quadrados de verde diariamente, enquanto a sociedade e os governos não se juntarem em medidas inteligentes, ecoeficientes, que atinjam todos os extratos sociais.

Muro de concreto jamsansao01200708231525ais será um ecolimite.

Para finalizar esta matéria, uma sugestão desse blog as autoridades, procurem saber o que é uma cerca viva.

O Eco Briefing´s inclusive já consultou um especialista em meio ambiente que confirmou ser de viabilidade a utilização de cerca viva associada a uma fiscalização eficiente, numa ação integrada com as comunidades participantes para demonstrar a importância da preservação do fragmento de mata atlântica ainda existente frente a contenção do crescimento exploratório das favelas.

 

Fotos: Muros – Skyscrapercity / favela no Maciço da Tijuca – Boca do Mangue / mapa – Lei / esgoto em favela – Arquivos Etc / lixo em favela Blog Verde / cerca viva Rede Parede

5 Respostas para “Muros de concreto como ecolimites

  1. Essa cerca viva não poderia ajudar de alguma forma a reduzir a emissão de carbono nas favelas?

  2. Seria muito bom se a intenção fosse conter o desmatamento e o avanço da população nas áreas ambientais, mas se tratando dos políticos do Governo Brasileiro que usa a verba a indenizatória e passagens cedidas pelo congresso para motivos pessoais, logo veremos que essa construção terá os se sempre “caixa dois e notas super faturadas”.

  3. Palmas para você, André. Embora possa não parecer, seus esforços prestam serviço importante à cidade a aos seus moradores.
    Concordo com as proposições do texto e o parabenizo pela exposição clara delas.

    Abraços!

  4. Muito interessante o post, sobretudo algumas consequências que eu não havia me atentado. É claro que esse muro não irá conter o avanço da favela, tão pouco irá conscientizar seus moradores que é o foco de todo o problema. Essas “soluções” imediatas, como foi dito, só são criadas para tornar visível o pouco que o Governo faz pelo Estado visando as eleições seguintes e sua imagem perante os eleitores. Se política é fazer e mostrar que foi feito que seja menos mal assim, porque queremos ver onde está sendo empregado o dinheiro público, outra totalmente estúpida é gastar para se promover sem nada a nos beneficiar. Mas de uma coisa é certa, os moradores das favelas ficarão felizes!! Agora eles tem onde jogar o lixo!!! rsrs

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